quinta-feira, 24 de março de 2016

Polêmica nos cursos de formação para PM. Especialistas atribuem crise à gestão inadequada

Um estudo feito pelo departamento de psicologia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, cujo resultado foi divulgado nesta quarta-feira (23/3) pelo portal de notícias G1, conclui que "é posição unânime entre oficiais e praças que uma formação curta e descontinuada [dos militares] é ineficaz para pautar suas ações". O material levanta também a relação entre falta de aprimoramento profissional e abuso de força no policiamento ostensivo das ruas e comunidades. Por outro lado, especialistas na área de Segurança Pública questionam a gestão do secretário José Mariano Beltrame e atribuem à implantação sistemática de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) grande parte das deficiências no setor.  

A base da pesquisa foi em relatos de policiais de várias patentes acerca de sua rotina e colhidos em, pelo menos, quatro batalhões que mais utilizaram arma letal em 2015. De acordo com a publicação do G1, os militares que participaram da pesquisa deixam prevalecer o "sentimento de despreparo e insegurança" e como não há "protocolos sistematizados", o improviso acaba sendo a melhor solução na rotina de trabalho. 

Na avaliação do ex-corregedor da Policia Militar do Rio, coronel Paulo Ricardo Paúl, a questão da formação de PMs no Estado atingiu patamares críticos e já tornou um problema crônico. Para Paúl, o setor está em queda livre desde o início da gestão do secretário Beltrame, que é caracterizado pela ausência de uma administração adequada e da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas comunidades sem um critério administrativo. "O Cefap [Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças] ficou conhecido como fábrica de policiais, onde chegamos a ter mais de 3 mil [PMs] em formação. Uma coisa absurda, que trouxe problemas até para o rancho[alimentação dos policiais], que passou a não atender a demanda", frisa o oficial. 

E quando o assunto é formação na área de Segurança, Paúl faz uma análise mais complexa. O oficial chama a atenção para o fato de não haver no mercado policiais prontos e jovens convocados pela corporação, no primeiro momento, não têm experiência, mas cabe ao órgão instruí-los da melhor forma possível para a atividade. "O policial novato quando não completa na sua instrução um número suficiente de tiro [nos treinamentos] para dominar o seu instrumento de trabalho, que é a arma, ele vai para as ruas sem esta capacidade, o que representa perigo para a população", diz o coronel. "Quando observamos o excesso de tiros nas ruas pelas forças policiais, chegamos a conclusão que a formação daquele grupo ou indivíduo não foi boa. Ou seja, um inocente pode ser atingido", alerta.

O aperfeiçoamento adequado citado pelo ex-corregedor, no entanto, custa caro aos cofres públicos. "Para o policial saber usar com segurança a sua arma, o governo tem que gastar dinheiro mesmo, principalmente com balas. Ele tem que aprender a atirar e ter um número mínimo de tiros antes de atender a população. E o preço da munição não é nada barato", considera Paúl. Ainda no campo da administração, o oficial questiona medidas que foram conduzidas como "carro chefe" do setor nos últimos anos. "No momento que se aumenta o efetivo [de PMs], há necessidade de rever a estrutura para acompanhar estas novas despesas e tem que se ter condições de custear. Uma série de erros de gestão levaram ao policial a este quadro de crise atual. A falta de planejamento na área da segurança passa até pela escolha dos comandos. Veja que nenhuma polícia do país teve tantos comandantes-gerais em 9 anos como o Rio", enfatiza Paúl. 

O major da PM Helio Oliveira aponta mais um problema que vem interferindo no desempenho dos policiais nas UPPs. "Eles [governo] colocam o policial [em uma UPP] sem que tenha conhecimento da topografia e sem um estudo detalhado da população local. Não há preparação e critérios", diz Oliveira. O major destaca que o PM formado no Cefap, na maioria dos casos, é procedente do interior do Estado e não possui uma convivência maior com a violência da capital. "O que representa um risco para a segurança e integridade do próprio profissional. Ele ingressa em uma área de risco sem a devida experiência", cita. Oliveira comenta também que muitos policias em UPPs moram distante das suas residência, tendo um valor em vale transporte acima do seu salário. Em tempos de crise, a situação destes PMs fica ainda mais grave.

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