quarta-feira, 23 de março de 2016

Pílula do câncer: cientista destaca benefícios do medicamento

Claudia Freitas


Em entrevista para a equipe de reportagem do portal, no final do ano passado, o cientista Marcos Vinícius de Almeida - um dos detentores da patente da fosfoetanolamina sintética no combate ao câncer, produzida na USP de São Carlos – comentou sobre vários aspectos da pesquisa e eficácia do medicamento.




Atualmente, o que pode comprovar que este produto tem eficácia?
Tem gente que melhora (fazendo uso da pílula), em outras pessoas diminui o tumor, em outras diminui a dor, tem pacientes que ficam curados, e tem aqueles que falecem. Ou seja, cada organismo reage de forma diferente. Geralmente, quem recebe a cápsula são pacientes terminais. Só o fato dela (cápsula) tirar a dor de um paciente neste estágio - temos relatos que um tumor causa muita dor - para a gente já é uma grande vitória. Mas sabemos que tem cura sim, isso é real. Temos laudos enviados por médicos que comprovam isso para a gente, dados clínicos que a Anvisa recebe para criar o seu controle. Tenho inúmeros e-mails e trocas de Whatsapp com estes médicos comprovando tudo. O importante dizer aqui é que ninguém voltou reclamando da cápsula, não há processo pelo uso do produto.

Qual foi a grande descoberta deste estudo? O que funcionou com a fórmula dos senhores que antes não se tinha conhecimento científico?
A patente de síntese que fizemos tem a maior pureza nos produtos que já existem. Junto com a fofosetanolamina, que é um fosfolipídio produzido no fígado e músculos, tem outros fatores que chegamos na sua manipulação mais limpa. Essa é a diferença. Com isso, conseguimos resultados em alguns organismos. Testamos em animal, em pacientes, em nós mesmos. Os estudos ainda não foram concluídos. Ah, e essa teoria antiga de que a fosfo provoca tumores, já comprovamos que isso não é verdade. Vimos que ela é uma defesa do organismo combatendo a doença, porque ela aumenta a quantidade no corpo com a presença dele [tumor]. Só não experimentamos ainda em todos os tipos de tumores.

Uma produção industrial não influenciaria na eficácia do produto?
Não. Se produzindo em escala industrial não perde a eficácia. A produção agora é no laboratório, mas obedece aos parâmetros da comunidade científica internacional.

Como o senhor ingressou na equipe do professor Gilberto?
Foi em 2008. A pesquisa do Gilberto Chierice completou 25 anos em 2015. No início a gente teve a parceria da Unesp da Bauru [cidade natal de Marcus Vinícius] e depois do Instituto de Butantã. Quando vimos os resultados positivos, resolvemos patentear. A rotina com as liminares.

Como os senhores estão lidando com esta questão das liminares?
É muito duro e triste ver as pessoas, famílias e até os pacientes implorando pelas cápsulas, pedindo uma chance para continuar vivo. Teve um dia destes que um policial militar ajoelhou na minha frente pedindo para salvar a vida da filha dele. Dizem que os cientistas não têm sentimentos, imagina, a gente sofre com esta situação. Todos os dias tem gente nas minhas redes sociais pedindo ajuda. Eu tenho familiares que morreram vítimas de câncer. É complicado.

Os senhores já receberam alguma ameaça?
Não estamos recebendo nenhuma ameaça. Nada. Isso não está acontecendo. Mas quem tem família tem medo, claro.

É verdade que as multinacionais estão querendo comprar a patente?
Tem empresas de tudo quanto é parte do mundo nos procurando para comprar a patente. Não vamos fazer isso. Até porque existe um contrato assinado entre a gente que prevê a aplicação dos recursos vindos desta pesquisa na criação de um instituto que vai se empenhar na descoberta de novos produtos contra a doença.

O senhor pensa que pode ficar muito rico com este estudo? Está feliz com a descoberta?
Quem vai imaginar que de uma tese de mestrado vai sair uma pesquisa desta? Claro que a gente fica feliz, mas não pesamos em riqueza. Pode ver que sou uma pessoa simples, estou aqui pegando o meu ônibus, trabalho para sustentar a minha família... Mas pensamos em conseguir outras conquistas. Que repórter não gostaria de publicar que tal médico encontrou a cura do câncer? (risos).

Qual a avaliação que o senhor faz desta descoberta para o desenvolvimento científico no Brasil?
Se tudo ficar confirmado até o final deste processo [a eficácia da pílula] o Brasil terá portas abertas para novas descobertas. É um avanço exponencial.

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