O homem de Eduardo Paes na CPI dos Ônibus

Batizado Washigton, professor sacrificou as consoantes para facilitar a comunicação com o eleitor do subúrbio. Sem medo de vaias, atua em oito grupos de trabalho, além da CPI dos Ônibus, e se considera o "suprassumo da representatividade"




Raramente a Câmara Municipal do Rio dá trabalho ao prefeito Eduardo Paes. Com 41 dos 51 vereadores, o Palácio Pedro Ernesto funciona, quando funciona, como uma extensão do Executivo. Mas se algo no horizonte ameaça a tranquilidade do PMDB na Casa, ‘o cara’ para resolver a questão é Professor Uoston – o nome verdadeiro é Washington. Alçado à fama com a violenta rejeição a seu nome na relatoria da CPI dos Ônibus, cujos integrantes foram definidos por ele mesmo, o “homem da prefeitura” tem sido alvo de pedras e ovos sempre que aparece em público nos arredores do prédio. Seria um problema, não fosse Uoston famoso – e orgulhoso – justamente por não ter medo de vaias  – o que, para um vereador do PMDB, na casa legislativa apelidada de Gaiola de Ouro, é uma qualidade e tanto.

Professor Uoston adotou o nome por conveniência. Afinal, é mais fácil fazer o eleitor se lembrar desta grafia do que da fartura de consoantes de Washington. O “Professor” vem da graduação em Biologia, na Universidade Federal Rural, e de um curso de mestrado em saúde pública na Fiocruz. Nascido em Ricardo de Albuquerque, Zona Norte do Rio, Washington, na década de 90, abriu um ‘escritório político’, como chama os conhecidos centros sociais, depois de tanto ser acionado para levar os vizinhos, de carro, a postos de saúde da região. Surgiu, assim, a ideia de tentar a vereança. Para encurtar o caminho entre ele e a urna, foram cortados um W, um S, um H e uma junção “gt” do nome. Ganhou vida, então, o Uoston eleito em 2000, 2008 e 2012, sempre pelo PMDB, partido ao qual é filiado há mais de 20 anos e que, atualmente, domina as duas casas legislativas e os principais cargos do Executivo no estado e no município.

Uoston é o líder do maior bloco da Câmara, composto por 24 vereadores de sete partidos, chamado ‘Por um Rio melhor’. É considerado pelo PMDB “o homem certo” para afinar as vozes que dão sustentação ao governo municipal. Ele próprio se define como “um funcionário não remunerado da prefeitura” no Legislativo do Rio, tamanha a identificação com os projetos e necessidades de Eduardo Paes – a do momento, a CPI com a qual o PMDB não concordava e que, uma vez aprovada, passou a controlar.
Escolhido relator, com o colega de partido Chiquinho Brazão na presidência da comissão, Uoston escolheu os demais integrantes do grupo: Jorginho da S.O.S e Renato Moura, também da base de Paes, assumiram as outras duas posições. Ficou isolado na quinta cadeira Eliomar Coelho, do PSOL, o proponente da CPI.
Entre os manifestantes, todos querem Eliomar. Ninguém quer Uoston, Brazão e o PMDB. Além de não terem assinado o requerimento pedindo a abertura da comissão, Uoston e sua turma votaram a favor da redução do ISS para as empresas de ônibus para 0,01%, em 2010. O professor se defende, diz que com isso conseguiu a implantar o Bilhete Único no Rio. A verdade é que Uoston não teme nem se constrange com a opinião pública. Sob vaias, gritos de “vergonha” e outras palavras de ordem, levantou a voz na quinta-feira, durante a primeira audiência da CPI, para criticar o PSOL, para ira de quem conseguiu, em meio ao barulho, entender algo do que era dito na tribuna. A reação do grupo que lidera os protestos contra a composição da CPI veio na forma de uma sapatada, que por pouco não atingiu Uoston. “Ato covarde e mesquinho”, disse, para uma plateia indiferente, equipada com apitos.
Uoston avisa que não deixará a cadeira na CPI – ainda que a orientação do cardiologista seja para dar um tempo na exposição desde que sofreu um enfarto em 3 de maio. “Sou homem de firmar posição. Não entrei na política para chegar e sair despercebido”, afirma. Uoston tem em Jorge Picciani, presidente do PMDB no Rio, o principal apoio dentro da legenda. E foi alçado a relator da CPI dos Ônibus, cargo mais importante em uma comissão parlamentar de inquérito, pelo presidente municipal da legenda, Carlos Alberto Muniz.
Picciani e Muniz estão com ele. E ele está em todas: além da CPI dos Ônibus, Uoston atua em outras oito comissões da Casa. É integrante do grupo de Assuntos Urbanos, de Avaliação e Verificação do Efetivo Cumprimento das Leis Municipais, da Atualização da Lei 1.533 das Feiras Especiais de Arte, do Acompanhamento dos Trabalhos de Despoluição da Baía de Guanabara, de Acompanhamento das Obras de Implantação dos Corredores Transcarioca e Transoeste, de Organização do Comércio Ambulante, da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 e do Conselho de Ética. Uoston é também o presidente da comissão de Finanças, Orçamento e Fiscalização Financeira, por onde é analisada a Lei de Diretrizes Orçamentárias.


Uoston preside a comissão de Finanças desde 2008. “Ninguém trabalha mais do que eu aqui”, diz. Com a caneta, é ele quem coloca as emendas no orçamento, sempre se lembrando de sua região eleitoral. Para 2014, Uoston já sabe quais serão as frentes de atuação. Criará emendas para levar obras do projeto Bairro Maravilha – que constrói calçadas, pavimenta ruas e recupera redes de esgoto – a seis áreas, além de construir uma Nave do Conhecimento, com a oferta de cursos técnicos, e uma Clínica da Família na região Norte da cidade.
Na primeira oportunidade de abertura para perguntas ao secretário de Transportes da cidade, Carlos Osório, na quinta-feira, durante a CPI, Uoston aproveitou para interceder por sua base de eleitores. Reclamou de duas linhas de ônibus e pediu pela rápida melhoria, mostrando que sabe faturar em cima das adversidades. “Sou suburbano. Fui aluno do colégio Pedro II, da faculdade Rural, sou professor e estou vereador para representar uma parcela do subúrbio. Não posso trair essa população”, diz Uoston.

No meio da crise pela qual passa a Câmara, Uoston vai pedir audiência com Paes para tratar do alagamento de casas na antiga estrada do Rio do Pau. Este ano, já foram cerca de 10 reuniões como prefeito, que não costuma demorar três dias para receber o vereador no gabinete. “Sou um grande funcionário da prefeitura não remunerado. Vejo as necessidades e passo a responsabilidade para o prefeito executar as obras”, justifica.
Uoston usa seu conhecimento para criar frases de efeito. Depois de se esquivar do sapato, saiu-se com esta, para atordoar qualquer interlocutor: "A sapatada não pegou em mim, mas eu me adaptei e digo o seguinte: eu sou o suprassumo da representatividade de que não se faz omeletes se não o quebrar os ovos".
Por não ter medo de pedra, ovos e vaias, Uoston acabou se tornando uma espécie de porta-voz de um grupo que, quando aparece, apanha. Apesar de ser Chiquinho Brazão o presidente da comissão, é ele, Uoston, quem tem aparecido – e recebido ataques. Na abertura da CPI, a palavra até estava com Brazão, que começou os trabalhos com uma saudação: “Cidadões...” Melhor deixar com o professor.


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