Para ler e refletir.

Eu e meus livros! Por Alessandro Lyra Braga


Quem me conhece sabe que eu adoro livros! É uma verdadeira tara, principalmente pelos livros mais antigos, aqueles com capa de couro e letras douradas, e com linguagem rebuscada e, muitas vezes, poética. Porém, por mais que eu leia, na ânsia de entender o mundo e as pessoas, não consigo aceitar que existe gente que não gosta de ler. Sem gostar de ler, como podem gostar de estudar, por exemplo? A resposta é simples: não gostam! E o pouco que nosso povo estuda é por obrigação e de má vontade.
O verdadeiro incentivo da leitura começa na infância, mas não pode terminar apenas aí. Eventos como as bienais do livro estão acontecendo e se multiplicando pelo país afora, atraindo cada vez mais público interessado nos lançamentos e atividades correlatas. Na verdade, as pessoas até leem no dia-a-dia jornais, revistas e, atualmente, artigos na internet. Mas estas são leituras complementares e, normalmente, referem-se a algum episódio frívolo do cotidiano, não sendo uma formação de sólido saber. Interessante é perceber que mesmo no ambiente acadêmico, os livros não são mais vistos pelos alunos como o principal instrumento de aquisição de conhecimento. Muitos universitários percorrem todo o curso valendo-se apenas das famigeradas xerox de capítulos de livros e, quando acaba o período letivo, estes mesmos alunos simplesmente jogam fora as xerox! Para piorar a situação, uma instituição, que se diz universitária e que possui ramificações em boa parte do país, está fornecendo “tablets” aos seus alunos quando estes se matriculam nos cursos. Conforme o curso avança, eles recebem os artigos ou textos que a instituição acredita que sejam adequados. Assim, entendo que estão formando “robocops”, e não pessoas com o verdadeiro “nível superior”. Por isso eu afirmo que mais de oitenta por cento dos formandos no país, na prática, ainda são analfabetos funcionais, pois são incapazes de escrever ao menos uma carta sem ter que procurar um modelo no Google.
Governos que não incentivam de fato a leitura e o estudo de qualidade, logicamente, tem mais facilidade de manipular o povo ao seu pleno interesse. É fato que para o sucesso e o triunfo em prol dos interesses que uma elite ou lideranças ditatórias tenham em dominar uma sociedade, elas sempre atuam sobre os livros, jornais e revistas, destruindo-os ou proibindo-os. Até as peças teatrais e os filmes sofrem tais restrições. Foi assim durante a Idade Média, quando os livros ficavam quase que inteiramente restritos às bibliotecas dos mosteiros e abadias, e na ascensão do Nazismo, quando milhares de livros foram queimados em praças públicas sob total e absoluta influência governamental, que inclusive se valia de práticas de manipulação de massas populares que hoje encontramos facilmente nos livros de comunicação.
É comum afirmar-se que aqui no Brasil o livro é caro. Porém, pouca gente, mesmo que reclamando do preço da cerveja e das entradas dos estádios de futebol, deixa de beber e de ir ao futebol, por exemplo. Eu costumo dizer que nunca vi pobre em sebo, mesmo tendo livros custando o equivalente a um terço do preço de uma latinha de cerveja. O que falta é a valorização do hábito da leitura. Também ler para quê? Tivemos um ex-presidente que se gabava de não ter cursado uma faculdade e não demonstrava nenhuma intimidade com os livros. Mas com a cerveja e outros aperitivos…
Voltando à questão dos “meus livros”, nem sei mais quantos eu tenho, nem quantos eu li ao longo de minha vida. Já li alguns sensacionais, que me fizeram até sonhar com eles, como os livros “Todos os nomes” e “Ensaio sobre a cegueira”, ambos de José Saramago. Várias foram as passagens e sensações memoráveis que alguns livros me proporcionaram. Lendo “Os fantasmas do chapeleiro”, de Georges Simenon, cheguei a sentir a sensação de coriza quando o autor descreve o forte resfriado que o principal personagem possui ao longo da história. Já chorei lendo “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony e “Paula”, de Isabel Allende. Por conta de momentos como estes, é que eu considero meus livros como grandes amigos que tenho. Com eles, nunca estou só! Além disso, sou-lhes fiel. Não os empresto e converso com eles todos os dias. E o pior é sempre temos assunto!
Logo em minha infância, meus pais, avós, madrinha e uma tia me incentivaram muitíssimo a prática da leitura, mesmo antes de ter sido alfabetizado, e hoje faço o mesmo com minha sobrinha. Quando fui alfabetizado era comum ganhar livros quase que semanalmente. Assim, ganhei uma linda coleção de encadernação azul e com ilustrações sensacionais, que até hoje a possuo, narrando as fábulas encantadas. Na verdade, nunca me desfiz de nenhum livro e, por conta disso, minha casa hoje é uma verdadeira biblioteca. E não me refiro a apenas um cômodo, mas sim a casa toda!
Vasculhando sebos já encontrei raridades impressionantes. Já encontrei maravilhosos livros narrando expedições, científicas ou não, pelos rios e selvas da Amazônia e da África dignos das aventuras de Indiana Jones. Nestes livros também aprendi como vivia o povo russo antes da transformadora revolução de 1917 e como atuava a Resistência Francesa durante a ocupação de Paris pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Ao longo de minha vida, o que mais aprendi é que os verdadeiros tijolos de uma civilização consciente não são feitos de argila e sim de papel e letras.
*Alessandro Lyra Braga é carioca, por engano. De formação é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. Vive vários dilemas religiosos, filosóficos e sociológicos. Ama o questionamento.

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